quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Conheça a banda: Bikini Kill

Bikini Kill. Da esquerda para a direita: Tobi Vail, Kathleen Hanna, Kathi Wilcox e Billy Karren.

A música sempre foi, para muitos artistas, uma forma de expressar engajamento em algum movimento social. Na cena do rock, até o final dos anos 80, os artistas reconhecidos eram majoritariamente homens. Isso, somado com a influência de artistas femininas inovadoras do final dos anos 70, deu origem a uma vertente musical que se popularizou muito nos últimos anos do século XX: o riot grrl, que se baseava principalmente em letras feministas e políticas. Uma das bandas pioneiras desse estilo musical foi o Bikini Kill. Mas primeiramente, o que foi o riot grrl?
Durante o final dos anos 70 até o meio dos anos 80, existiram muitas artistas femininas inovadoras que ganharam um certo espaço na cena musical e que mais tarde inspiraram a ideologia riot grrl, como The Runaways e sua integrante Joan Jett, Siouxsie Sioux, Poly Styrene, The Slits, Kim Gordon do Sonic Youth, Lydia Lunch, entre outras. Já em 1987, a revista direcionada para garotas adolescentes Sassy tratava de assuntos que revistas com esse público-alvo normalmente não tratavam, sendo direcionada principalmente para jovens fãs de indie rock e rock alternativo. Mas foi apenas em 1989 que o riot grrl ganhou seu primeiro manifesto, que foi um artigo publicado pela revista Puncture, chamado "Women, sex and rock and roll" (Mulheres, sexo e rock and roll). Logo no começo dos anos 90, na região de Seattle e Olympia, jovens mulheres começaram a se envolver na cena underground da música e a propagar ideais punk-feministas por meio de fanzines e com a formação de bandas de garagem. Isso foi motivado principalmente pelo desconforto que muitas mulheres do movimento punk sentiam por acreditarem que não tinham voz devido à misoginia do movimento. Assim, em 1991, essas jovens se juntaram em um coletivo e expressaram suas opiniões em protestos, ações e eventos. As duas bandas mais ligadas à vertente riot grrl são Bratmobile e Bikini Kill, cujas integrantes, juntas, teriam sido responsáveis pelo próprio nome do movimento por meio da criação da fanzine "Riot Grrl", em 1991.
Agora iremos falar sobre o Bikini Kill. Por que essa banda se popularizou tanto entre as jovens dos anos 90?
Bikini Kill foi uma banda de punk feminista que surgiu em Olympia, Washington, e depois se estabeleceu em Washington, DC, formada em 1990, que foi bastante influenciada por uma banda de de rock americana chamada Babes In Toyland. Depois de dois álbuns, vários EPs e duas compilações, a banda acabou em 1997. Era composta por Kathleen Hanna (vocalista e compositora), Tobi Vail (baterista), Kathi Wilcox (baixista), e Billy Karren (guitarrista). Hanna, Vail e Wilcox se conheceram na Evergreen College, em Washington. Para seus primeiros shows em 1991, Hanna publicou uma fanzine chamada "Bikini Kill". A banda  escrevia músicas em conjunto e encorajava um ambiente centralizado nas mulheres em seus shows, estimulando as mulheres a virem para frente do palco e entregando papéis com as letras das músicas para elas. Kathleen Hanna também ia pessoalmente retirar homens baderneiros, que constantemente a agrediam verbal e sexualmente. O nome Bikini Kill tem como origem um filme B de 1967 chamado "The Million Eyes of Sumuru".
Depois de lançar independentemente uma fita cassete de demos chamada Revolution Girl Style Now!, a banda lançou o EP Bikini Kill pela gravadora indie Kill Rock Stars, e a partir daí, o público da banda começou a se estabelecer. O primeiro álbum da banda, Pussy Whipped, foi lançado em setembro de 1993. O Bikini Kill fez uma turnê em Londres e, ao trabalhar com uma outra banda de punk-feminista britânica, lançaram um "álbum dividido" chamado Our Troubled Youth / Yeah Yeah Yeah Yeah, o que inclusive inspirou um documentário. Ao retornar para os Estados Unidos, a banda começou trabalhar com a Joan Jett do The Runaways, cuja música Hanna descreveu como um exemplo inicial da estética riot grrl. Jett produziu o single mais importante da banda, New Radio/Rebel Girl, a Kathleen foi co-compositora de algumas músicas do álbum Pure and Simple de Joan Jett.
O Bikini Kill também ganhou reconhecimento dentre o público de rock por causa de duas coisas importantes: a baterista Tobi Vail, em 1990, começou a namorar Kurt Cobain, vocalista e guitarrista do Nirvana, e após a entrada do baterista Dave Grohl na banda de grunge, este começou a namorar com a vocalista e compositora do Bikini Kill, Kathleen Hanna. Desse modo, o Nirvana começou a ser fortemente associado ao Bikini Kill, o que popularizou a banda. E, além disso, durante o relacionamento de Cobain e Vail, Hanna costumava dizer que o vocalista do Nirvana cheirava ao desodorante Teen Spirit que Vail usava. Devido a isso, Hanna usou um spray para escrever na parede do quarto de Kurt Cobain a frase "Kurt smells like Teen Spirit". Cobain, sem perceber que se tratava do nome do desodorante, viu um significado mais profundo na frase e assim se inspirou a escrever Smells Like Teen Spirit, o maior hit da carreira do Nirvana. Depois de um tempo, ambos os casais se separaram, mas continuaram amigos.
Nesses anos, o movimento riot grrl estava recebendo atenção constante na mídia, e o Bikini Kill estava sendo cada vez mais referido como o pioneiro do movimento. Mas tanto a banda quanto o movimento estavam sendo mal interpretados pela mídia, levando ambos a serem odiados por grande parte das pessoas, o que fez Hanna dizer em uma entrevista que "era muito, muito difícil fazer parte daquela banda". Assim, em 1996, a banda lançou seu último álbum, chamado Reject All American. E, após o fim da banda. uma compilação de singles gravados entre 1993 e 1995 foram relançados em 1998, com o nome The Singles.
Portanto, o Bikini Kill não foi só uma banda pioneira do movimento riot grrl, como também foi uma banda que ajudou muitas mulheres a terem voz dentro da cena do rock dos anos 90. A inspiração que a banda trouxe abriu espaço para que futuras bandas com integrantes femininas ganhassem destaque, além de tornar reconhecido no meio musical a terceira geração do feminismo, já que suas letras eram consideradas como feminismo radical. E até os tempos atuais, o Bikini Kill não foi esquecido. Em fevereiro de 2016, a música Rebel Girl foi usada em um vídeo pró-Hillary Clinton que se tornou viral, mas que foi retirado por Tobi Vail, que em primeira instância, apoiava Bernie Sanders nas eleições americanas para presidente.
Atualmente, Kathleen Hanna e Kathi Wilcox participam juntas da banda The Julie Ruin, uma banda punk-eletrônica feminista, e Tobi Vail escreve para eMusic, uma loja digital de música e audiobooks. Antes de participar do The Julie Ruin, Hanna fazia parte de uma banda de eletrônica conhecida por suas letras de esquerda chamada Le Tigre. O site oficial do Bikini Kill é este e todos seus álbuns estão disponíveis no YouTube por meio de usuários independentes.